A Copa e a indústria

25/07/2013

Por Ricardo Martins*

Ricardo Martins é diretor do CIESP Leste.

A perspectiva de crescimento da economia brasileira este ano está abaixo dos 2%, segundo os próprios bancos oficiais. Enquanto isso, o governo federal está preocupado com as obras para a Copa do Mundo, da qual o principal beneficiário é a Fifa. Relegados ao segundo plano, os assuntos de interesse público como desenvolvimento econômico e industrial e as reformas tributária e política parecem ter sido transferidos para o próximo governo, após as eleições do ano que vem.

De certa forma, a provável desaceleração para qual ruma o Brasil indica aos olhares internacionais que era falso o otimismo que o País sustentou para realizar os megaeventos esportivos. O total previsto de investimentos, público e privado, para o espetáculo da Copa do Mundo de 2014 é de R$ 183 bilhões, com isso, o governo espera arrecadar tributos no valor R$ 16,8 bi aos cofres públicos. Porém, só em obras de para mobilidade urbana, portos, aeroportos, infraestrutura turística e serviços, já foram gastos R$ 28,1 bilhões.

Já as obras necessárias para o nosso desenvolvimento econômico, como a duplicação das rodovias que afunilam o transporte de produtos industrializados entre os Estados, continuam estagnadas. E nós, brasileiros, temos que assistir o governo federal tentando vender uma imagem de opulência no exterior, visivelmente preocupado com a reeleição presidencial.

Diz o governo que esta é uma oportunidade histórica para a promoção do desenvolvimento do País. Será? Ou seria apenas um megaevento de negócios com ares de competição esportiva? Quem ficará com os lucros do evento? Certamente, não os brasileiros, nem os trabalhadores e nem os empresários industriais.

A presidente tem repetido inúmeras vezes que o dinheiro empregado na construção dos estádios para a Copa não vem do Orçamento federal, que apenas foram concedidos empréstimos pelo BNDES, com teto de R$ 400 milhões por projeto. Só que ela esquece que os financiamentos do BNDES são títulos da dívida pública, a qual é paga com a arrecadação de impostos de toda a Nação.

Os recursos alocados como subsídios e renúncia fiscal, oferecidos pelas várias instâncias dos governos, poderiam sim ser empregados em projetos que evitassem prejuízos aos empresários e na geração de empregos para os trabalhadores – pesquisa da Grant Thornton Brasil aponta que apenas 1% dos empresários acredita na elevação do nível de emprego no País.

Da maneira com que foi montado o espetáculo da Copa da Fifa, não existe nenhum impacto na indústria nacional, a não ser o pequeno aumento do consumo de aço e concreto, mas de resto, a indústria não sente nada favorável em decorrência da Copa. Também não encontra nenhuma relação entre a construção dos estádios esportivos e desenvolvimento econômico regional, tornando falso o propalado “legado da Copa”.

Lamentavelmente só temos coisas ruins acontecendo com a indústria e não há nenhuma boa perspectiva para este ano. Estudo do IBGE acaba de indicar recuo de 2% da atividade industrial. A falta de uma política econômica para evitar a estagnação nacional é preocupante. Precisamos de mudanças estruturais capazes de desburocratizar o sistema tributário, de modernizar as relações trabalhistas, de promover a inovação tecnológica na indústria, de investir em mão de obra especializada, de coragem para arrochar os gastos públicos, evitar a invasão de produtos importados e o endividamento da população.

Com o aumento da taxa Selic, no mês de julho, para 8,5% ao ano, o cenário, que já era trágico para a indústria brasileira, piorou. Todos sabem que taxas elevadas de juros colaboram por frear ainda mais a economia. Então, não é preciso bola de cristal para prever que não há sinais de recuperação em curto ou médio prazo. A política de aumento de juros, sem a revisão consciente dos gastos públicos, eleva ainda mais os custos de produção e de transporte dos bens industriais.

Se não forem revistas essas diretrizes econômicas, concentrando o foco no aumento da competitividade, no estímulo à atividade econômica industrial e na contenção dos gastos governamentais, só nos resta torcer para que o Brasil não ganhe o hexa, o que é difícil para qualquer um. Só assim é possível que haja uma grande renovação dos políticos que aí estão, pois caso o Brasil ganhe, eles é que farão a própria festa mais uma vez.

* Ricardo Martins é diretor do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (CIESP) – Distrital Leste (www.ciespleste.com.br) e diretor de Relações Internacionais e Comércio Exterior da FIESP. Também é vice-presidente do SICETEL – Sindicato Nacional das Indústrias de Trefilação e Laminação de Metais Ferrosos. E-mail: linkciespleste@linkportal.com.br.

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